sexta-feira, 15 de junho de 2007

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A Terra exerce a sua força sobre o corpo de Gabriel, e a fadiga obriga-o a ceder. A intermitência das pálpebras inibe as certezas e torna vaga e difusa a vida para além do seu corpo. Como é bela a ignorância. Bela e escura, sulcada por trilhos de luz inintelígiveis. A sensação de que não existe mais nada; fechamos os olhos e tudo desaparece. A ignorância é onde nos escudamos dos problemas. Porque só temos obstáculos se os virmos lá, se soubermos que eles estão lá. Senão tropeçamos e levantamo-nos, como se não fosse nada. Nem damos por isso.

Vai contra a natureza humana. Porque, quando nascemos, nada temos de humano. Nascemos nas trevas claras do saco amniótico. Aprendemos a andar, a falar, a desiludirmo-nos, a trautear músicas no chuveiro, a usar de cadeiras para súbir a prateleiras mais altas, a gastar dinheiro em slot machines. Aprendemos tanto, erramos tanto. Às vezes só apetece fechar os olhos. Voltar ao momento inicial.

Fora de nós as coisas acontecem como nós saberíamos que elas acontecem se não optássemos pela ignorância. O chão devora os degraus da escada rolante. Os segundos passam. Os minutos também. Algumas pessoas discutem um escandâlo político qualquer. Alguém passa a correr, resmungando

- Chega para lá!

Seremos certamente obrigados a abrir os olhos, mais tarde ou mais cedo. E se esse momento chegar, então que seja como da primeira vez. Que seja tudo novo, mesmo o que é velho, mesmo aquela escultura na estação de metro, sempre igual, sempre pedra, sempre abstracta.

Completo aqui.

domingo, 10 de junho de 2007

Giovanni Sollima - Sogno ad Occhi Aperti

Em baixo: vídeos do violoncelista italiano Giovanni Solima, realizados por Lasse Gjertsen. A parte 1 é especialmente boa. Vejam este vídeo também. Ou todos eles (o filme Jeg går en tur tem legendas, não se preocupem...).

Giovanni Sollima - Sogno ad Occhi Aperti (Daydream)

Ok, enganei-me e deletei os posts com os vídeos. Vou deixar os links:

Parte 1;
Parte 2.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

relativização

Ao que parece a melhor forma de nos recordarmos bem do que é importante é esquecermos o que não é importante. Um estudo publicado na revista Nature NeuroScience, citado pelo New York Times diz que o nosso cérebro tem mais facilidade em procurar as memórias relevantes se ignorar o que é irrelevante.

Nem sempre é fácil descobrirmos o que é importante. Uma grande parte do sucesso do Google enquanto motor de busca deve-se ao facto de conseguir, para uma dada pesquisa, mostrar as páginas mais relevantes, de forma a que, geralmente, encontremos na primeira página de resultados aquilo que procuramos.

O problema é que nem sempre é fácil para nós manter a mente organizada e esquecer aquilo de que não precisamos. Michael Anderson, professor de neurociência cognitiva na Universidade de Oregon diz que "a nossa cabeça está repleta de um surpeendente número de coisas que não precisamos de saber".

Mas a questão que eu tenho é: alguém me diz o que é, afinal, importante ou não saber?

segunda-feira, 4 de junho de 2007

séries de televisão

O que é que torna uma série de televisão uma boa série de televisão?
É o mesmo que perguntar o que é que faz de um livro um bom livro?
Ou seja, quais são os ingredientes necessários de uma história?
Eu não consigo gostar de séries portuguesas. Primeiro porque raramente, muito raramente (para não dizer nunca), têm um enredo original, o que é uma das possibilidades para gerar um bom conteúdo criativo. As séries de comédia portuguesa recorrem a trocadilhos fáceis e piadas forçadas, um humor de bolso, pouco ambicioso. Não estou, é claro, a falar de programas diferentes, como o Hora H ou o Programa da Maria, mas das séries que a RTP1 costumava transmitir aos sábados à tarde e afins. Depois há as telenovelas, que fazem estender os seus dramas quase sempre similares durante episódios a fio, sem se cansarem, sem se preocuparem com a forma como as histórias são contadas, mas apenas que elas sejam contadas - caso contrário seria impossível ter um episódio por dia.
Nunca aparecem personagens com a forte personalidade de um Dr. House ou as tiradas de um Alex Keaton em Quem Sai Aos Seus. E as vozes off nunca têm a ironia de Grey's Anatomy, nenhuma série de suspense (se é que já houve alguma) teve a inteligência de Lost ou a quantidade de twists de Prison Break.
João Lopes, o crítico de cinema e dos media em geral, escreveu na revista de TV do DN que Gilmore Girls tinha todos os ingredientes de uma telenovela excepto os personagens e enredos standard, previsíveis e desinteressantes. Mas, principalmente, escreveu que tinha uns diálogos fascinantes, que é o que realmente torna a série diferente, diálogos inteligentes, cheios de ironia, humor e referências pop que impedem a monotonia e dão o real interesse à série.
Os nossos argumentos são sempre excessivamente lineares. Não é suposto uma série procurar abordar temas à força como quando ouvi na rádio os argumentistas dos Morangos Com Açúcar a gabarem-se de abordarem temas como a hiperactividade ou as dificuldades dos deficientes motores no dia-a-dia. Um tal novelo de temas só impede que hajam personagens e histórias com o mínimo de profundidade. A RTP está a passar, a seguir ao Gato Fedorento uma série chamada Conta-me Como Foi, baseada numa série espanhola, onde as referências aos anos sessenta são visivelmente forçadas, como ao insistir no relevo das mini-saias, ou nos cromos, nas caricas, etc., em lugar de deixar as personagens indo criar as suas próprias histórias, os seus próprios passados, e deixar as referências surgirem por si próprias.
A ficção portuguesa parece sempre tão falsa, tão forçada, tão pretensiosa. Talvez essa necessidade de forçar as histórias seja o que elas têm de pior, porque as histórias não se podem forçar, têm que se ser contadas como se já estivessem à espera para ser contadas, como se se tivessem, realmente, passado. Por outro lado há a falta de inovação. Para substituir o Gato a RTP lança A Minha Família, baseado num original estrangeiro, como o Conta-me Como Foi. Os Morangos Com Açúcar surgiram com a New Wave e todas as outras telenovelas brasileiras cheias de praia. O Max, bom, eu nem vou falar desse. Vou ficar por aqui.

terça-feira, 1 de maio de 2007

feist - the reminder


amanhã

A angústia do amanhã que não vem,
que surge à janela de comboios antiquados
com o rosto de outro alguém;

A espera de dias atrasados
que se esgotam em
metáforas dúbias e sonhos alados;

A cada dia que passa é mais
inútil a esperança vã
na chegada do amanhã.

(E até o silêncio das borboletas púrpura
me faz pensar.)