quarta-feira, 20 de junho de 2007

já foi mais fácil mandar calar

Foi aqui, em textos como este, que começou o caso José Sócrates, a subsequente investigação jornalística, o pedido de explicaçõs de Marques Mendes, e depois, novamente mais investigação jornalística e depois aquele que foi o meu detalhe favorito no processo todo: as "declarações bombásticas" da UnI.
Sócrates usou indevidamente o título de Engenheiro. O máximo que ele obteve foi um título de qualquer-coisa-que-equivale-a-uma-licenciatura-ou-bacharelato-ou-lá-o-que-é de Engenharia, numa universidade privada tão prestigiante que acabou ver todos os seus dirigentes presos há bem pouco tempo, com estardalhaço e aspecto de máfia portuguesa. Ok, sobre isto já ninguém tem dúvidas. De pois de muito balbuciar, de nos apresentar aquele seu fashionable look de primeiro-ministro que não presta declarações sobre assuntos polémicos (1), o próprio Sócrates acabou por admitir, pelo menos essa parte.
A UnI veio depois encerrar o assunto porque tinha declarações bombásticas para dizer numa terça, que, afinal, era uma quinta, e que afinal, não eram bombásticas, mas sim uma súmula daquilo que já se sabia.
A mim não me importa muito saber se o primeiro-ministro é Engº ou deixa de o ser. Eu nem fazia a miníma ideia de que é que ele se dizia ser engenheiro antes desta polémica. E mais preocupante do que tentar passar-se por alguém que não é, usando um título que não é seu. Nunca foi tão fácil fazer piadas, para mais para quem estuda numa universidade que forma, principalmente, engenheiros. O que me espanta, o que me preocupa, são as notícias que agora surgem, que mostram não só o pouco desportivismo do primeiro-ministro, como a sua veia ditatorial de oposição à liberdade de expressão. Por ter revelado factos, o autor do blog Portugal Profundo, que mencionei no príncipio, foi constituído arguido.
Eu não sou fã do blogue, uma vez que traz a lume um tipo de artigos sensacionalistas que não me dizem muito, mas sou fã da liberdade de expressão. E não é assim que o primeiro-ministro calará a blogosfera. Somos muitos e todos prezamos muito a possibilidade de nos exprimirmos em lugares públicos, à vista de todos, as nossas opiniões.
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(1) Aconselho vivamente a que sigam este link em particular...
(2) Já não é a primeira vez que o autor do blogue é constituído arguido pela sua habilidade em remexer em assuntos polémicos, e já foi absolvido por esses assuntos relacionados com o caso Casa Pia e uma suposta quebra do segredo de justiça.

tenho a comunicar que não tenho nada a comunicar

Estamos a chegar ao Verão. Não sabemos que estamos no Verão por causa do sol, afinal de contas o tempo tem estado de chuva. Não sabemos que estamos no Verão porque começamos a suspirar pelas férias, como bons portugueses fazemos isso várias vezes ao ano; além de que ir para a praia em Setembro sai mais barato.
É pelos jornais que eu constato que estamos a chegar ao Verão. Porque o mercado de transferências já começou as suas movimentações. É a abertura oficial da época da não-notícia que invade jornais e telejornais por esta altura do ano. Em breve vamos ver títulos como: "há pessoas que aproveitaram o facto de estar sol e um calor estafante de 35º para ir à praia" ou "vamos já em directo para a assembleia da república, ver como está vazia porque os políticos estão todos de férias", ou ainda, "ao que parece nesta montanha já não há nada para arder, mas estamos aqui porque não tem havido muitos fogos e portanto temos ainda que fazer a reportagem deste desolador monte de cinzas durante mais uns quatro ou cinco dias".
Querem ver? Querem ver?

domingo, 17 de junho de 2007

e já agora

- Ir de limousine até ao supermercado.

little things to do

- Perder 1000 euros numa única aposta no blackjack (a aposta pode ser maior, conforme as possibilidades, claro está).
- Ir aos cinco continentes.
- Correr a meia-maratona de Lisboa, de Londres, e a da Midnight Sun Marathon, na Noruega.
- Comer spaghetti em Itália para jantar e depois voltar para Portugal na mesma noite (o nascer do sol conta como "a mesma noite").
- Noite de ano novo na Times Square.
- Esquiar nos Alpes.
- Ver nevar em Paris, e em Lisboa, já agora.
- Fazer um interrail.

sábado, 16 de junho de 2007

playlist #01 - this and that

The Repudiated Immortals - Of Montreal
Revelations - Audioslave
A Lady Of A Certain Age - The Divine Comedy
Intervention - Arcade Fire
Last Nite - The Strokes

sexta-feira, 15 de junho de 2007

1

A estação de metro está apinhada de gente. Quando o mundo está tão cheio de pessoas, não damos por mais uma, menos uma, há um equilíbrio dinâmico que não nos diz nada. Perto do olhar, longe do coração. Cada um de nós tem o seu mundo dentro do mundo. O meu mundo é daltónico, manco e maneta, mas é o meu mundo. Há mais luas, há mais eclipses neste mundo do que em outros mundos, mas é este o meu mundo.

O mundo de Lia gira incontrolavelmente. O mundo de Lia é incostante, dilata-se e estreita-se. O chão do mundo de Lia escapasse-lhe sob os pés e ela quase cai, mas apoia-se numa parede. Lia cerra os dentes, fecha os punhos. Dói-lhe a cabeça.

Doem-lhe todas as vozes em uníssono. As do passado, as do presente, aquelas que ela inventou em sonhos. A mãe com as suas palavras enroladas como cigarrilhas, os seus francesismos. Chardonnay, um copo de champanhe que cai e toca o chão e se estilhaça. O som de um coração apertado contra o peito. Gritos, passos, um soalho de madeira que range. Vendedores que apregoam laranjas. Adolescentes que se riem muito alto. O retumbante silêncio dos viajantes solitários. Um crescendo de violinos. Todas as vozes, agora, sob a batuta de um maestro de fraque negro, vamos lá, as contraltos, os barítonos, as sopranos, os tenores, todos, um clamor que se eleva entre o burburinho do fim de tarde.

Completo aqui.

2

A Terra exerce a sua força sobre o corpo de Gabriel, e a fadiga obriga-o a ceder. A intermitência das pálpebras inibe as certezas e torna vaga e difusa a vida para além do seu corpo. Como é bela a ignorância. Bela e escura, sulcada por trilhos de luz inintelígiveis. A sensação de que não existe mais nada; fechamos os olhos e tudo desaparece. A ignorância é onde nos escudamos dos problemas. Porque só temos obstáculos se os virmos lá, se soubermos que eles estão lá. Senão tropeçamos e levantamo-nos, como se não fosse nada. Nem damos por isso.

Vai contra a natureza humana. Porque, quando nascemos, nada temos de humano. Nascemos nas trevas claras do saco amniótico. Aprendemos a andar, a falar, a desiludirmo-nos, a trautear músicas no chuveiro, a usar de cadeiras para súbir a prateleiras mais altas, a gastar dinheiro em slot machines. Aprendemos tanto, erramos tanto. Às vezes só apetece fechar os olhos. Voltar ao momento inicial.

Fora de nós as coisas acontecem como nós saberíamos que elas acontecem se não optássemos pela ignorância. O chão devora os degraus da escada rolante. Os segundos passam. Os minutos também. Algumas pessoas discutem um escandâlo político qualquer. Alguém passa a correr, resmungando

- Chega para lá!

Seremos certamente obrigados a abrir os olhos, mais tarde ou mais cedo. E se esse momento chegar, então que seja como da primeira vez. Que seja tudo novo, mesmo o que é velho, mesmo aquela escultura na estação de metro, sempre igual, sempre pedra, sempre abstracta.

Completo aqui.